terça-feira, 24 de agosto de 2010

Todo O Tempo Do Mundo



Todo O Tempo Do Mundo

Carlos Tê / Rui Veloso

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir

Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
agora só te quero ouvir

Podes-me interromper
e contar a tua história
Do dia que aconteceu
A tua pequena glória
O teu pequeno troféu

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
o mundo à volta ruía

E tu vinhas e falavas
falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia

Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo



Bom dia meus amores!


Nostalgia do corpo


Ela estava de pijama, e eu usava o meu melhor vestido. Noite de sábado perdida. E em comum, amores distantes e fome. Ela parou o carro numa padaria, e comemos pizza. A melhor pizza das colinas das Perdizes. A pior forma de engolir o frio dos lençóis vazios do porvir.

Falamos pouco, mas de muitos assuntos. A conversa se perdia no intervalo de silêncios, quando o pensamento era assaltado pelos homens que estavam longe daquela mesa repleta de distrações. Em um gesto típico de quem veste pijamas, ela ergueu as pernas e abraçou os joelhos. Não era o frio, ainda que fosse mais uma noite gelada em São Paulo. Era ausência. E dos olhos dela rolaram lágrimas de abandono.

- Somos mais generosas, as mulheres.

Ela disse essa frase entre uma garfada, um suspiro e o tilintar de talheres. Foi a única frase lógica, em meio à profusão de assuntos fugazes que vomitávamos na tentativa de escaparmos da nossa condição. Pagamos a conta direto no caixa, com dinheiro e sem identificação. Anônimas de olhar perdido no túnel negro da noite.

Na frente do meu prédio ela acelerou, e seguiu direto para o seu apartamento. Queria me mostrar um livro. Queria exterminar os ecos do silêncio de uma casa vazia.

Ela estava de pijamas, e eu usava o meu melhor vestido. Fez do sofá uma cama e pediu para que eu passasse a noite ali. A frase foi dita sem interrogação e sem chance de recusa. Ela ainda ficou mais de uma hora no escuro tentando dormir. Fiquei imaginando seu corpo miúdo contraído no canto da cama. Seus braços, envolvendo os joelhos. Só consegui dormir quando ouvi sua respiração ritmada no outro quarto. A dor dela me distraía de mim mesma. Eu era o psiquiatra na poltrona. Ela deitava no divã. E não falava.

A amizade acontece no hiato do silêncio.

Acordei com o soar de sinos da igreja. Deixei o sofá do jeito que o encontrei. A casa continuava um cenário sem atores, e a respiração dela era ainda uma canção de exílio.

Calcei o par de botas já dentro do elevador.


Ana Karina Bucciarel

Blog http://www.onzepalavras.com/


Muitos bjs.

17 comentários:

Fátima disse...

Oi! :)

É, andamos ocupados com tanta coisa que às vezes esquecemos e não temos tempo só para ouvir o outro... por isso gosto de não fazer tanto para ter tempo de...

Um beijo

Dagmar disse...

Oi Fátima,
Mudou o visual do blog? Ficou lindo! Parabéns! Vim para fazer um convite. Abri um espaço para os amigos do Mania Colorida, mais informal e onde reúno os simpatizantes do blog. Acesse o link http://amigosdomaniacolorida.blogspot.com/ e participe. Será um prazer tê-la conosco. Adoro vir aqui e ler o que posta, sempre muito oportuno!
Super beijo no coração,
Dagui

Isabel Cristina disse...

Oi Comadre, não se preocupe, vc não está em falta comigo... mas espero que esteja tudo bem contigo. M andei um email enoorme para vc! Depois lê e me dê um retorno, estou precisando.

Beijocas

Zélia Guardiano disse...

Fatima, querida, que coisa mais linda!
"A amizade acontece no hiato do silêncio."
Não é preciso dizer mais nada...
Enorme abraço, minha linda!!!

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Cenas dos tempos modernos, do dia a dia. Falta de tempo ou tempo mau usado? Beijos.Novo visual está show.

Urban.Go disse...

Que lindo texto, é nas coisas banais que se encontram os olhares mais atentos e os corações mais puros e sensiveis.
Gosto do Rui Veloso, até já o conheci pessoalmente. Vivemos ambos no Porto, que é uma cidade muito especial pelas suas pessoas empreendedoras e sempre amantes das artes.
Beijinho.

Rui da Bica disse...

Olá minha querida, Fá !
Mais uma fantástica canção desta dupla de visinhos do Porto (a minha terra) ! São os dois fabulosos pelo conjunto da sua obra !
... e um hino à Amizade ! Como ela é linda, Fá !
Beijão, querida Amiga !
.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Fátima!mais uma vez nos premia com uma linda postagem. Bela música e belíssima interpretação.

Beijos,

Furtado.

Adolfo Payés disse...

Un amanecer ante tus versos es maravilloso..

Que tengas un lindo día..

Un abrazo
Saludos fraternos....

Mônica disse...

Fátima
Será que tem alguem que consegue dar todo o tempo que tem para alguem?
O meu tempo é tão corrido e olha que estou levemente aposentada
com carinho MOnica

Pelos caminhos da vida. disse...

M A R A V I L H O S O, texto amiga.

beijooo.

manuel marques disse...

É uma infelicidade que existam tão poucos intervalos entre o tempo em que somos demasiado novos e o tempo em que somos demasiado velhos ...

Beijo.

Sandra Botelho disse...

Tempo, tempo, tempo, mano velho...
Linda postagem querida. Bjos achocolatados

onzepalavras.com disse...

Obrigada Fátima, por divulgar o meu trabalho aqui no seu lindo blog. Um grande beijo, querida!

G I L B E R T O disse...

Fatiminha

"A amizade acontece no hiato do silêncio"


Frase magnifica, perfeita!

Deliciei-me...

Grato!

Eliene Vila Nova disse...

Oi amiga
você como sempre tão inspiradora
adorei a letra que colocaste no meu blog,linda.
sabe sempre veno aqui quando quero ler algo bonito ou escutar uma boa música,adoro.
beijos

Taia Assunção disse...

Opa, agora sim...Tenho tido tempo e confesso que gosto, não sei se o uso da melhor forma...beijocas!